sexta-feira, 24 de agosto de 2012

StG-44 & AK-47

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Qual a diferença entre um fuzil que empregue a velha munição de mosquete típico da Primeira Guerra Mundial e um fuzil desenhado para usar munição baseada no 7,92 Kurz alemão? Costuma-se dizer que a grande diferença entre o 7,92 Kurz e o velho 7,92 x 57 Mauser seria o peso do cartucho completo, o que não deixa de ser verdade, mas a construção geral da arma é que sofre a maior mudança, não só pela construção mais delgada, já que a menor potência do tiro demanda menos material, mas também pelo menor comprimento de todas as peças da arma.
Uma munição mais curta permite um carregador mais curto, um ferrolho mais curto e um curso de ferrolho menor, o que permitirá um cofre de mecanismo mais curto também.
No quadro abaixo arbitrei que a distância entre a ponta da munição e a câmara do fuzil seria um quarto do comprimento total da munição e a distância entre a base da munição no carregador e a parte traseira do ferrolho (onde fica a parte do percussor que é tocada pelo cão) arbitrei em 30 mm.
A                          B         C          D         E         F          G         H         I            J            K       
79,92x33 Kurz       33         49        16        12,25    49,00    49,00    30,00    91,25     231,50     0,9
7,62x39 M1943     38,7      56         17,3     14,00    56,00    56,00    30,00    100,00    256,00    1
7,62 NATO          51,18     69,85    18,67    17,46    69,85    69,85    30,00    117,31    304,48    1,19
7,92x57 Mauser     57         82        25        20,50    82,00    82,00    30,00    132,50    347,00     1,36
30-06                   63,3      85         21,7     21,25    85,00    85,00    30,00    136,25    357,50    1,4


LEGENDAS:   
A     Cartuchos
B     Comprimento do estojo
C    Comprimento da munição
D    Comprimento que projétil acrescenta à munição
E    distância do carregador até a câmara (¼ do comprimento da munição)
F    Comprimento horizontal do carregador (o mesmo da munição)
G    Comprimento da câmara (o mesmo da munição)
H    Distância entre a traseira do ferrolho e a base da munição (arbitrei em 30 mm)
I     Comprimento do ferrolho
J     Comprimento do cofre (duas vezes o ferrolho mais a câmara)
K    Comparação com o ferrolho de uma arma em calibre 7,63 x 33 mm (AK-47)

Usando estes parâmetros, uma arma dimensionada para usar o potente 30-06 do fuzil Garand terá 40% mais comprimento, só no cofre. Além da necessidade de usar mais aço para suportar o disparo bem mais potente do 30-06 (83% mais energia cinética que um tiro de AK-47), esta maior quantidade de aço deverá ser usada num engenho necessariamente todo mais longo.

O grande feito do Sturmgewehr foi liberar os projetos das munições pesadas, que tornavam as armas pesadas e incontroláveis.
Agora, uma tabela com energia cinética e momento.


Cartuchos            projétil     velocidade     energia    comparação    momento    comparação
                                            pés/seg
    79,92x33 Kurz      125        2250            1404,94       0,89           5,55             0,95
    7,62x39 M1943    123         2400           1572,93       1                5,83             1
    7,62 NATO            150        2800            2610,9         1,66           8,3               1,42
    7,92x57 Mauser    198        2600            2971,63       1,89         10,17             1,74
    30-06                     165        2800           2871,99        1,83           9,12             1,57
Os valores da tabela não são definitivos, existem muitas munições num mesmo calibre com diferentes velocidades e diferentes projéteis; apenas tentei pegar os dados das versões mais típicamente encontradas entre os soldados.

O 7,92 Mauser clássico é muito potente, o que traz outra discussão: maior ainda foi o feito do FG-42, que foi o primeiro fuzil 100% operacional utilizando munição de mosquetão e pesando pouco mais que um StG-44. O FG-42 pede 50% mais material na construção, tendo 112% mais energia cinética e 83% mais momento que o StG-44, mas pesa apenas 11% mais. Realmente um grande feito. É bem verdade que a construção do FG é totalmente diferente da construção de um StG, exatamente onde está a engenharia formidável dessa arma. O que teria sido um FG disparando a munição 7,92 x 33?
O FAL é uma arma que faz o trancamento no corpo, o que é ótimo para a limpeza, mas péssimo para a vida útil da arma. Após 17 mil tiros a caixa de culatra do FAL fica 0,25 mm mais longa e o headsapace fica perigosamente comprometido; é quando o FAL é repotenciado (como uma retífica de motor). Se o FAL fizesse o trancamento diretamente entre ferrolho e cano, seu corpo poderia ser mais fino e ele não precisaria ser repotenciado depois de meros 17 mil tiros. O AK-47, além de disparar uma munição menos potente, faz o trancamento do cano diretamente na área da câmara, liberando o corpo para ser feito materiais menos nobres e/ou mais leves.
Mas, quem é o pai dos fuzis de assalto? E o que é um fuzil de assalto? Um fuzil de assalto é uma arma que atira quase como uma submetralhadora nas distâncias curtas e quase como um mosquetão nas distâncias longas, algumas características:
  1. Tem carregador destacável de trinta tiros ou mais;
  2. Acerta um homem à quatrocentos metros, e;
  3. Dispara rajadas quando necessário sem desperdiçar munição.
A possibilidade de emprego de coronhas dobráveis e o punho de pistola vieram como consequências.
As miras abertas e próximas foram usadas no StG-44 e no Kalashnikov por serem miras rápidas e usáveis até por quem não tem visão muito acurada, não significa que uma arma com grande distância entre miras na configuração “peep sight” não possa ser um fuzil de assalto (como o belga FNC).
FAL, FG-42, M-14 e BAR não são fuzis de assalto (o BAR nem é um fuzil, ela só atira em automático e por ferrolho aberto – na realidade é uma metralhadora leve com nome errado).
Como o trancamento do StG-44 é totalmente diferente do trancamento do AK-47, alguns insistem na falta de parentesco entre os dois, o que é um erro, pois o militar não se importa com os detalhes funcionais dos mecanismos, o que ele quer é a dupla “layout + forma de emprego”, sobretudo a forma de emprego.
Quem lançaria uma arma de cano excepcionalmente curto, munição curta e menos potente, miras abertas e não muito afastadas, carregador destacável de trinta tiros e capaz de disparar rajadas se o StG-44 não tivesse sido fabricado?
O fuzil AK-47 é uma versão russa do Sturmgewehr, mas usa ferrolho rotativo e um mecanismo de gatilho de espingarda Browning 1906. A frase de Lee Ermey “nothing can be further from reality” foi exagerada.
O parentesco não é o mesmo que notamos entre a Borchardt e a Luger, entre o Kalashnikov e o Galil, mas ele existe sim.
Parentesco por parentesco... a Maxim é uma carabina Henry (que é uma Volcanic) onde o movimento da alavanca é feito pelo recuo; a Borchardt é uma Maxim de mão com o joelho quebrando para cima e a Luger é uma Borchardt menos medonha e canhestra. Veio tudo da Volcanic!

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