O mundo gastou tanto tempo velando os judeus, que os comunistas pegaram Coreia, China, Vietnã e Cambodja (entre outros menos importantes). *** queria tanto usar acento agudo em Coreia, mas parece que não há mais.
Na versão impressa do LIVRO NEGRO começa na página 26, na versão para download (a do Papai Noel), começa na 12.
A análise dessa realidade central do
fenômeno comunista no poder - ditadura e terror - não é simples. JeanEllenstein definiu o fenômeno stalinista como uma
mistura de tirania grega e despotismo oriental. A fórmula ésedutora, mas não dá conta do caráter moderno dessa
experiência, de seu alcance totalitário, distinto das formas anteriormente conhecidas de ditadura. Um rápido
sobrevoo comparativo permitirá uma melhor compreensão.
Poder-se-ia inicialmente evocar a
tradição russa da opressão. Os bolcheviques combatiam o regime terrorista
do Czar, que, entretanto, empalidece diante dos
horrores do bolchevismo no poder. O Czar denunciava os prisioneiros políticos diante de uma verdadeira justiça; a defesa
podia exprimir-se tanto quanto ou ainda mais do que a acusação e tomar o testemunho de uma opinião pública nacional
inexistente no regime comunista e, sobretudo, de uma opinião pública internacional. Os prisioneiros e os condenados
se beneficiavam de uma regulamentação nas prisões, e o regime de desterro, ou mesmo o de deportação, era
relativamente leve. Os deportados podiam partir com suas famílias, ler e
escrever o que quisessem: caçar, pescar e se
encontrarem, nos momentos de lazer, com seus companheiros de “infortúnio”. Lenin e Stalin puderam experimentar essa
situação pessoalmente. Mesmo as Recordações da casa dos mortos, de Dostoievski, que tanto chocaram a opinião
pública na época de sua publicação, parecem anódinas em face dos horrores do comunismo. Seguramente, houve, na
Rússia dos anos 1880 a 1914, tumultos populares e insurreições duramente reprimidos por um sistema político arcaico.
Porém, de 1825 a 1917, o número total de pessoas condenadas à morte nesse país, por sua opinião ou sua ação
política, foi de 6.360, dos quais 3.932 foram executados - 191 de 1825 a
1905, e 3.741 de 1906 a 1910 - quantidade que já
havia sido ultrapassada pelos bolcheviques em março de 1919, apóssomente quatro meses de exercício de poder. O balanço
da repressão czarista é, assim, sem paralelo com o do terror comunista.
Entre os anos 20 e 40, o comunismo
censurou violentamente o terror praticado pelos regimes fascistas. Umrápido exame dos números mostra que as coisas não são
assim tão simples. O fascismo italiano, o primeiro em ação e também quem abertamente reivindicou para si o título
de “totalitário”, aprisionou e com frequência maltratou seus adversários políticos. Entretanto, ele raramente
chegou a cometer assassinatos, de modo que, na metade dos anos 30, a Itália tinha algumas centenas de prisioneiros
políticos e várias centenas de confinati - postos em residência vigiada nas
ilhas -, mas, é verdade, tinha também dezenas de
milhares de exilados políticos.
Até a guerra, o terror nazista visou
alguns grupos; os oponentes ao regime - principalmente comunistas, socialistas,
anarquistas, alguns sindicalistas - foram reprimidos de maneira aberta,
encarcerados em prisões e sobretudo internados
em campos de concentração, submetidos a humilhações severas. No total, de 1933
a 1939, aproximadamente 20.000 militantes
de esquerda foram assassinados com ou sem julgamento nos campos e prisões; sem
falar dos acertos de contas internos ao
nazismo, como a “noite dos punhais” em junho de 1934. Outra categoria de
vítimas destinadas à morte foram os
alemães que supostamente não correspondiam aos critérios raciais do “grande
ariano loiro” - doentes mentais,
deficientes físicos, idosos. Hitler decidiu executar seus intentos por ocasião
da guerra: 70.000 alemães foram vítimas
de um programa de eutanásia com asfixia por gás, entre o fim de 1939 e o início
de 1941, até que as Igrejas protestassem
e que o programa fosse encerrado. Os métodos de asfixia por gás aperfeiçoados
na ocasião são os que foram aplicados no
terceiro grupo de vítimas, os judeus.
Até a guerra, as medidas de exclusão
contra eles eram generalizadas, mas sua perseguição teve seu apogeu naocasião da “Noite de Cristal” - várias centenas de
mortos e 35.000 internamentos em campos de concentração. Foi somente com a
guerra, e sobretudo com o ataque à URSS, que se desencadeou o terror nazista,
cujo balanço sumário é o seguinte: 15
milhões de civis mortos nos países ocupados; 5,1 milhões de judeus; 3,3 milhões
de prisioneiros de guerra soviéticos; 1,1
milhão de deportados mortos nos campos; várias centenas de milhares de ciganos.
Á essas vítimas se juntaram 8 milhões de
pessoas destinadas a trabalhos forçados e 1,6 milhão de detentos sobreviventes
em campos de concentração.
O terror nazista chocou as imaginações
por três razões. Inicialmente, por ter atingido diretamente os europeus. Por
outro lado, uma vez vencidos os nazistas, e com seus principais dirigentes
julgados em Nuremberg, seus crimes foram
oficialmente designados e condenados como tais. Enfim, a revelação do genocídio
dos judeus foi um choque por seu caráter
de aparência irracional, sua dimensão racista, o radicalismo do crime.
Nosso propósito aqui não é o de
estabelecer uma macabra aritmética comparativa qualquer, uma contabilidadeduplicada do horror, uma hierarquia da
crueldade. Entretanto, os fatos são tenazes e mostram que os regimescomunistas cometeram crimes concernentes a
aproximadamente 100 milhões de pessoas, contra 25 milhões de pessoas atingidas pelo nazismo. Essa simples constatação deve,
pelo menos, provocar uma reflexão comparativa sobre a semelhança entre o regime que foi considerado, a
partir de 1945, como o regime mais criminoso do século, e um sistema comunista que conservou, até 1991, toda a sua
legitimidade internacional e que, até hoje, está no poder em alguns países, mantendo adeptos no mundo inteiro.
Mesmo que muitos dos partidos comunistas tenham reconhecido tardiamente os crimes do stalinismo, eles não
abandonaram, em sua maioria, os princípios de Lenin e nunca se interrogam sobre suas próprias implicações no fenômeno
terrorista.
Os métodos postos em prática por Lênin e
sistematizados por Stalin e seus êmulos, não somente lembram osmétodos nazistas como também, e com frequência, lhes
são anteriores. A esse respeito, Rudolf Hoess, encarregado de criar o campo de Auschwitz, e também seu futuro
comandante, sustentou afirmações bastante indicativas: “A direção da Segurança fizera chegar aos comandantes dos campos
uma detalhada documentação sobre os campos de concentração russos. Baseando-se nos testemunhos dos fugitivos, estavam
expostas em todos os detalhes as condições reinantes
no local. Destacava-se particularmente que os russos exterminavam populações
inteiras utilizando-as em trabalhos
forçados.” Porém, se é fato que a intensidade e as técnicas da violência de
massa foram inauguradas pelos comunistas
e que os nazistas tenham se inspirado nelas, isto não implica, a nosso ver, que
se possa estabelecer uma relação direta
de causa e efeito entre a tomada do poder pelos bolcheviques e a emergência do
nazismo.
Desde o fim dos anos 20, a GPU (novo
nome da Tcheka) inaugurou o método das quotas: cada região e cadadistrito deviam deter, deportar ou fuzilar uma
determinada percentagem de pessoas pertencentes às camadas sociais “inimigas”. Essas percentagens eram definidas
centralmente pela direção do Partido. A loucura planificadora e a mania estatística não diziam respeito somente à economia;
elas também se aplicavam ao domínio do terror. Desde 1920, com a vitória do Exército Vermelho sobre o Exército
Branco, na Crimeia, surgiram métodos estatísticos, e mesmo sociológicos: as vítimas são selecionadas segundo
critérios precisos, estabelecidos com a ajuda de questionários aos quais ninguém poderia deixar de responder. Os mesmos
métodos “sociológicos'' serão postos em prática pelos soviéticos para organizar as deportações e execuções
em massa nos Estados Bálticos e na Polônia ocupada de 1939- 1941. O transporte dos deportados em vagões de animais
acarretou as mesmas “aberrações” que as cometidas pelo nazismo: em 1943-1944, em plena batalha, Stalin fez
com que milhares de vagões e centenas de milhares de homens das tropas especiais do NKVD deixassem o fronte para
assegurar em um curtíssimo espaço de tempo a deportação das populações do Cáucaso. Essa lógica do genocídio - que
consiste, retomando o Código Penal francês, na “destruição total ou parcial de um grupo nacional, étnico, racial
ou religioso, ou de um determinado grupo, a partir de qualquer outro critério
arbitrário” - aplicada pelo poder comunista a grupos designados como inimigos,
a frações de sua própria sociedade, foi conduzida ao seu paroxismo por Pol Pot
e seus khmers vermelhos.
Fazer a aproximação entre o nazismo e o
comunismo, no que diz respeito a seus respectivos extermínios, podechocar. Entretanto, é Vassili Grossman - cuja mãe foi
morta pelos nazistas no gueto de Berditchev, escritor do primeiro texto sobre Treblinka e também um dos mestres do Livre
noir sobre o extermínio dos judeus na URSS - que, em seu relato Tout passe, faz um de seus personagens dizer a
respeito da fome na Ucrânia: “Os escritores e o próprio Stalin diziam todos a mesma coisa: os kulaks são parasitas,
eles queimam o trigo, matam as crianças. E nos disseram sem rodeios: é preciso que as massas se revoltem contra
eles, para aniquilá-los todos, enquanto classe, esses mal ditos.” E acrescenta: “Para matá-los, seria preciso declarar: os
kulaks não são seres humanos. Do mesmo modo que os alemães diziam: os judeus não são seres humanos. Foi o que
Lenin e Stalin disseram: os kulaks não são seres humanos.” E Grossman conclui, a respeito das crianças kulaks: “É
como os alemães que assassinaram as crianças judias nas câmaras de gás: vocês não têm direito de viver, vocês são
judeus.”
A cada vez, não são tanto os indivíduos
que são atingidos, mas os grupos. O terror tem como objetivoexterminar um grupo designado como inimigo, que, na
verdade, constitui-se somente como uma fração da sociedade, mas que é atingido
enquanto tal por uma lógica do genocídio. Assim, os mecanismos de segregação e
de exclusão do “totalitarismo da classe” se parecem singularmente
àqueles do “totalitarismo da raça”. Á sociedade nazista futura devia ser construída em torno da “raça pura”; a sociedade
comunista futura, em torno de um povo proletário, purificado de toda escória burguesa. O remodelamento dessas duas
sociedades foi planejado do mesmo modo, apesar de os critérios de exclusão não serem os mesmos. Portanto, é falso
pretender que o comunismo seja um universalismo: se o projeto tem uma vocação mundial, uma parte da humanidade é
declarada indigna de existir neste mundo, como no caso do nazismo; a diferença é que um recorte por estratos
(classes) substitui o recorte racial e territorial dos nazistas. Logo, os
empreendimentos leninista, stalinista, maoísta e
a experiência cambojana põem à humanidade - assim como aos juristas e historiadores - uma nova questão: como qualificar o
crime que consiste em exterminar, por razões político-ideológicas, não mais
indivíduos ou grupos limitados de oponentes, mas partes inteiras da sociedade?
É precisoinventar uma nova denominação?
Alguns autores anglo-saxões pensam dessa forma, criando o termo “politicídio”.
Ou é preciso chegar, como o fazem os
juristas tchecos, a qualificar os crimes cometidos pelos regimes comunistas
como “crimes comunistas”?
O que se sabia dos crimes do comunismo?
O que se queria saber? Por que foi preciso esperar o fim do séculopara que esse tema obtivesse o status de objeto de
ciência? Pois é evidente que o estudo do terror stalinista e comunista em geral, comparado ao estudo dos crimes nazistas, tem
um enorme atraso a recuperar, mesmo que, no Leste, os estudos se multipliquem.
Um grande contraste não pode deixar de
nos causar surpresa: foi com legitimidade que os vencedores em 1945situaram o crime - e em particular o genocídio dos
judeus - no centro de sua condenação ao nazismo. Numerosos pesquisadores em todo o mundo trabalham há décadas
sobre essa questão. Milhares de livros lhe foram consagrados, dezenas de
filmes, dos quais alguns muito famosos nos mais diferentes géneros - Noite e
Neblina ou Shoah, A Escolha de Sofia ou A
Lista de Schindler. Raul Hilberg, para citarmos apenas um autor, fez da
descrição detalhada das modalidades da
matança aos judeus no III Reich o centro de sua obra mais importante.
Ora, não existe um trabalho como esse
sobre a questão dos crimes comunistas. Enquanto que nomes como osde Himmler ou o de Eichman são conhecidos em todo o
mundo como símbolos da barbárie contemporânea, os de Dzerjinski, Lagoda ou de Lejov são ignorados da
maioria. Quanto a Lenin, Mao, Ho Chi Minh e o próprio Stalin, eles sempre foram tratados com uma surpreendente
reverência. Um órgão do Estado francês, a Loto, chegou a ter a inconsciência de associar Stalin e Mao a uma de suas
campanhas publicitárias! Quem teria a ideia de utilizar Hitler ou Goebbels numa operação semelhante?
A atenção excepcional concedida aos
crimes hitleristas é perfeitamente justificada. Ela responde à vontade dossobreviventes de testemunhar, dos pesquisadores
de compreender e das autoridades morais e políticas de confirmar os valores democráticos. Mas por que os testemunhos dos
crimes comunistas têm uma repercussão tão fraca na opinião pública? Por que o silêncio constrangido dos
políticos? E, sobretudo, por que um silêncio “acadêmico” sobre a catástrofe comunista que atingiu, há aproximadamente
80 anos, um terço da espécie humana, sobre quatro continentes? Por que essa incapacidade de situar no centro da
análise do comunismo um fator tão essencial quanto o crime, o crime de massa, o crime sistemático, o crime contra a
humanidade? Estamos diante de uma impossibilidade de compreensão? Não se trata, antes, de uma recusa deliberada de
saber, de um medo de compreender?
As razões dessa ocultação são múltiplas
e complexas. Inicialmente, estava em jogo a vontade clássica econstante dos carrascos de apagar as marcas de seus
crimes e de justificar o que eles não podiam esconder. O “relatório secreto” de Kruschev (1956), que se constituiu como o
primeiro reconhecimento dos crimes comunistas pelos próprios dirigentes comunistas, é também o relato de um
carrasco que vai procurar mascarar e encobrir seus próprios crimes - como chefe do Partido Comunista ucraniano no auge do
terror - atribuindo-os somente a Stalin e valendo-se do fato de que obedecia a ordens; ocultar a maior parte do crime
- ele fala somente das vítimas comunistas, bem menos numerosas do que todas as outras; atenuar o significado desses
crimes - ele os qualifica como “abusos cometidos pelo regime stalinista”; e, enfim, justificar a continuidade do
sistema com os mesmos princípios, as mesmas estruturas e os mesmos homens.
Kruschev nos dá um testemunho franco,
relacionando as oposições com as quais ele se chocou ao preparar orelatório secreto”, particularmente no que diz
respeito ao homem de confiança de Stalin: “Kaganovitch era de tal modo um
adulador, que ele teria cortado a garganta de seu pai se Stalin assim o
ordenasse com uma piscada de olhos, dizendo-lhe que era no interesse da Causa:
a causa stalinista, é claro, f...] Ele argumentava contra mim por causa do
medo egoísta de perder o pescoço. Ele obedecia
ao desejo impaciente de fugir a toda responsabilidade. Se havia crimes,
Kaganovitch queria somente uma coisa: estar certo de que suas marcas foram
apagadas.” O fechamento absoluto dos arquivos
dos países comunistas, o controle total da imprensa, da mídia e de todas as
saídas para o exterior, a propaganda do
“sucesso” do regime, toda essa máquina de ocultar informações visava, em
primeiro lugar, impedir que viesse à luz
a verdade sobre os crimes.
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