Certas empresas, na verdade talvez a maioria, criam nada ou pouco, apenas fabricam similares. A nossa IMBEL é essencialmente isso. Há doze anos me foi relatado um caso interessante sobre o fuzil FAL, produzido no Brasil sob licença da FN belga.
O FAL é um bom fuzil, mas não é isento de problemas; uns de projeto, outros de má execução de um ou outro componente ou escolha equivocada de material.
Um dos problemas de projeto do FAL, e de praticamente todos os seus similares é a possibilidade de disparo acidental partindo da posição com câmera vazia. Parece impossível, mas não é.
Quando um FAL é batido contra o chão com a coronha, cena não muito incomum quando um oficial passa por um sentinela cheio de energia, a inércia opera a mágica.
Como ocorre?
O fuzil, ao ser arremessado de ré contra uma superfície rígida, ao parar, param apenas os componentes rigidamente atrelados ao corpo (coronha, corpo, cano, carregador); o impulsor do ferrolho pode descer por inércia.
Ao descer, o impulsor do ferrolho pode, com sua energia armazenada, destrancar o ferrolho, trazê-lo para trás por uma distância suficiente para livrar uma munição do carregador e deixar o cão armado pela armadilha de automático (não o gatilho, mas a trava que libera o cão sempre que o impulsor atinge a sua posição mais adiantada, a trava que é responsável pelo fogo automático da arma). Consumida a energia que lançou o impulsor para trás, ele empurra o ferrolho para frente, introduz uma munição do cano e, ao terminar o trancamento, atinge a armadilha de automático, ocasionando um disparo acidental.
Pode ocorrer que a o impulsor tenha sido lançado totalmente para trás, nesse caso a arma permanecerá engatilhada e com munição na câmera, mas o cão terá recuado o bastante para ser capturado pelo mecanismo normal de disparo (gatilho). Se o soldado não apertar o gatilho, ótimo; se apertar achando que a câmera continua vazia, aí ocorrerá o disparo.
Como resolver esse problema?
Uma trava inercial. Uma trava que desce um pouco antes do impulsor do ferrolho sob o mesmo impacto e coloca um obstáculo no caminho do impulsor; é muito fácil resolver. Alguns dirão que tal mecanismo pode se acionar durante a vibração do fogo automático, mas basta desenhar a peça de tal maneira que ela nunca se mova se o gatilho estiver pressionado. Acabou-se!
Quando este fenômeno foi detectado no nosso exército, o professor Nelmo Suzanno ofereceu a trava de inércia de graça à IMBEL apenas pelos créditos de ter resolvido o problema; a IMBEL negou a colaboração afirmando que o FAL é amplamente utilizado no planeta, que ele é ótimo, que é moderno...
Assim é o mundo, e não é só no Brasil.
Agora, mais um caso envolvendo a nossa IMBEL e o FAL.
Nos primeiros anos de fabricação, e evento (furo que permite a passagem dos gases do cano da arma para o sistema do pistão) do FAL era furado sem nenhum cuidado especial. Alguns furos ocupavam um cheio do raiamento (onde o diâmetro do cano é menor, a "RAIA" propriamente dita), outros ocupavam um vazio e outros eram divididos entre cheio e vazio. Quando o furo era dividido entre cheio e vazio uma "unha" cortante se formava e todo projétil que passasse por ali deixava parte de sua jaqueta. Além de projetar pedaços de jaqueta para o cilindro de gases o projétil, uma vez danificado, perdia parte da estabilidade e a arma acabava com uma precisão bem abaixo da esperada. O professor Nelmo viu o problema, mas preferiu ficar calado para evitar constranger algum empregado da fábrica.
Quanto custa um ferramental completo para produzir um produto defeituoso? Não perguntam para quem entende, dá nisso.
***Durante alguns anos a Beretta modelo 92 foi fabricada com um pino percussor inercial. O pino percussor inercial é empurrado pelo cão até quase tocar a espoleta, daí para frente o curso é feito por inércia. Um dia alguém derrubou uma arma dessas e ela bateu com a boca do cano no chão; o percussor correu para frente e ocorreu um disparo. Como a fabulosa Beretta cometeu tamanho erro de projeto? Da mesma forma que a fabulosa FN!
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